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Como as mulheres transformam a PYXYS (e estão me transformando)

A coluna de estreia de nosso fundador e CEO, Andrés Bruzzone, reflete sobre como mulheres convidam todos nós a uma transformação.

Andrés Bruzzone
Como as mulheres transformam a PYXYS (e estão me transformando)

Todo homem de mais de 40 disse ou fez coisas das quais deveria se arrepender. Se ainda não se arrependeu, é grave. Há quem diga que a idade é 30, ou até mesmo 20.

Eu devo ter feito mais do que a maioria e tenho muito do que me envergonhar e me arrepender. Meu processo começou passados os 50, muito como consequência de um golpe quase mortal que a vida me deu. Ganhou velocidade e espaço até ocupar hoje um lugar importante dentro daquilo que faço para (como indica Nietzsche) tornar-me quem sou. Esse processo de demolição de quem fui e a tentativa de construir algo novo no lugar me define em grande parte.

Pode um homem cis branco, heterossexual, educado e com poder, com um passado marcado pela violência machista e patriarcal, se afirmar feminista? Cabe ser mais modesto: espero poder um dia poder dizer que sou antissexista e enquanto isso vou tentando.

O processo não é fácil. Dói. Exige olhar para alguns dos aspectos mais sombrios de si, para feiuras que custa reconhecer e que, quando vistas, não da mais para desver. Mexer nessas profundezas solta um fedor que penetra as narinas e não sai. É muito para se limpar, organizar, jogar fora. Ofende-se a velhas amizades e familiares. Nestes últimos anos fui chamado de palhaço, acusado de “falar para a minha turminha” e de tirar proveito de um discurso fácil. Segmentos completos de minha família paterna romperam comigo a partir de discussões sobre linguagem inclusiva (e nem chegamos a falar sobre aborto legal, gratuito e seguro!).

O preço que paguei e pago é pouco quando eu descubro os muitos ganhos.

Existe um pacto masculino sobre o qual não se fala e que não deve ser traído nem exposto. Diz a Bell Hooks que esse pacto esconde um medo profundo que nos impede de amar. Acho que ela está é muito certa e acho que todos devíamos ler dois dos seus livros: O feminismo é para todo mundo e Tudo sobre o amor.

Precisamos quebrar o pacto machista, que é a coisa correta que nos cabe como homens. É também a possibilidade de abrir uma vida nova.

Não há um único aspecto do meu ser e do meu fazer que não tenha sido alterado por esta descoberta. Nas relações amorosas deixei o lugar do predador. Nas de trabalho, abandonei o líder heroico. Navegando, troquei o desafio de vencer pelo prazer de percorrer. As minhas rotas, todas, se tornaram menos retas, mais sinuosas e interessantes.

Tenho ajuda feminina e algo que aprendi foi que não conseguiria sem. Uma filha que milita nas fileiras das Pibas, essas mulheres jovens que, com seus lenços verdes, conseguiram aprovar uma lei que protege o direito à vida das mulheres em uma sociedade tão conservadora e retrógrada como a da Argentina. Uma namorada que faz de um feminismo amoroso e crítico uma forma de vida no cotidiano; ela me ensina a promover a sua liberdade para que eu possa ser também mais livre em um mundo mais justo. Sócias pacientes, compreensivas e críticas, que me alertam com doçura ou com firmeza, nunca com violência, contribuindo nesse processo com alegria e justiça. Colegas e colaboradoras que se expõem, defendem ideias e lugares, que me corrigem muitas vezes – sempre menos do que precisaria, tenho certeza. Irmãs fortes e livres e uma mãe quase octogenária que batalham, elas também, para se desfazer do patriarcalismo profundo que marcou a história da família.

Aprendi muito neste processo. Sei que ainda tenho muito mais por aprender. Caminante no hay camino, se hace camino al andar.

Quando, entusiasmado, acreditei ter deixado atrás meu machismo, descobri que sou muito mais machista do que consigo ver. Assim como sou mais racista do que admito para mim mesmo, o sexismo está em mim. Machismo e sexismo são a minha condição, até certo ponto me constituem e determinam quem eu sou e como eu ajo e penso.

Aprendi que isso é porque machismo, como racismo, não é questão de ter opiniões erradas, mas de uma forma de estruturar nosso inconsciente. Essa estrutura emerge como ações, modos de dizer e de fazer, de se relacionar e no próprio olhar sobre si.

Humanos, somos o resultado do encontro de uma condição em que nascemos (uma língua, uma nação, uma religião, uma família), com aquilo que nos acontece e com as decisões que tomamos. Assim, quem somos é algo que está (parcialmente) em nossas mãos. “Sou aquilo que faço com a minha história” e “Sou o que faço de mim com o que querem fazer de mim”, diria Sartre.

Por isso mudar é possível. E difícil. É tarefa de uma vida: exige atenção permanente e um esforço consciente. Em filosofia (ciência machista e patriarcal), diríamos que é necessária uma nova ontologia, uma nova compreensão do ser que substitua esse velho paradigma que exige ser destruído.

Eu venho aprendendo muito e tenho a certeza de que é mais o que ainda falta que o que já fiz.

Na Pyxys, a questão de gênero é central. Somos um sócio e três sócias e há uma predominância de líderes mulheres numa equipe bastante diversa. Fazemos por convicção e naturalmente: sai desse jeito, é natural.

Assim, a Pyxys tem cada vez mais uma personalidade feminina. Um grupo de trabalho bastante feminino, com predominância de mulheres em condições de conduzir e decidir, ainda que no grupo existam homens com papeis igualmente importantes.

Este processo tem me ensinado muito e quero compartilhar algo disso.

Aprendi que a voz de um homem com poder pode abafar outras vozes. Que é necessário treinar a voz mansa e as pausas na fala, para que pessoas menos impetuosas ou apressadas possam se fazer ouvir. Que na voz tímida e suave de uma mulher muito jovem existe toda uma visão de mundo a descobrir, e que para que ela possa se manifestar é preciso que eu me recolha.

Aprendi que há muito sobre a maternidade que nós homens talvez nunca poderemos entender. Que combinar ser pai com uma vida profissional é muito mais fácil do que ser mãe e construir ou preservar uma carreira ou uma atividade que não seja a de cuidar dos filhos e da família. E não se trata apenas de quem criou filhos que hoje são adultos: mulheres da geração da minha filha sofrem as mesmas dificuldades, apenas mitigadas. Aprendi que escolher ter um filho significa escolher resignar espaços profissionais ou ter de enfrentar jornada dupla ou tripla, somar ao sequestro do corpo pela gestação às exigências de um mundo produtivo que não para.

Aprendi isso vendo as minhas sócias e minhas colegas conciliando amamentação e troca de fraldas com envio de proposta para cliente, ultrassom com subida de site, pepino de leads com dor de dentes da filha, virada de noite combinando febre infantil com fechamento de projeto… Não vi isso mesmo nos meus colegas pais. Ser pai ainda é bem mais fácil do que ser mãe.

Aprendi que meu gênero, minha raça, minha origem social, me beneficiam muito. Não que o mérito pessoal não conte: muito do que consegui foi porque tive o talento e a coragem e porque fiz o esforço. Mas que de partida e ao longo da carreira o aspecto físico e o papel na sociedade fazem as coisas mais fáceis, eu também sei.

Aprendi que uma organização feminina é diferente em aspectos que eu nunca tinha suspeitado. Que o organograma pode e talvez deva ser substituído por fluxogramas e pela organicidade de uma visão de ecossistema. Que ganhamos se as relações hierárquicas são substituídas por modelos horizontais.

Na botânica são descritas duas tipologias predominantes de crescimento: a da árvore, vertical a partir de uma semente, e a da grama, ou rizomática, na qual caules se expandem para os lados, multiplicando os centros de modo que não há mais um centro, mas muitos ou nenhum. Uma organização em árvore, vertical, é mais masculina; um rizoma dialoga melhor com organizações femininas.

Metáforas vegetais aparecem muito quando penso na organização feminina e não acho que seja acaso. Os ciclos naturais, assim como os da lua, das marés e das estações, marcam fortemente o caráter do grupo feminino.

É curioso porque na empresa não ouço falar em TPM. Começo a suspeitar que o conceito é masculino e atende a uma visão da biologia marcada pela produtividade e a necessidade de constância e regularidade. Mas se TPM não é assunto, ciclos menstruais são, de maneira muito natural e aberta. Minhas sócias e minhas colegas falam das suas fases hormonais e eu começo a entender a riqueza de conviver com esse universo fascinante dos ciclos que se cruzam, se complementam, se encontram. Aquela colega está mais introspectiva e reflexiva, a outra aparece mais esfuziante e alegre. Conectadas desde o corpo próprio com a vida como sucessão de ciclos, as mulheres enriquecem o tecido do comum com uma variedade que cada uma carrega em si. A uniformidade linear do masculino substituída pela sinuosidade politeísta da mulher.

Na primeira versão deste texto, eu destacava o que eu vejo como uma organização mais colaborativa, com menos competência individual e maior cuidado pelo outro e pelo coletivo, e relacionei isso com a feminilidade da PYXYS. Fui advertido por minhas colegas que talvez estivesse romantizando o feminino, mainsplaining… Faz parte do aprendizado. Mesmo assim, acho que há um tom diferente na organização e que tem a ver com isso que eu chamo de personalidade feminina da PYXYS sem saber muito bem definir. Não que grupos masculinos não possam colaborar e conseguir feitos juntos, mas a individualidade está mais presente e é premente. A figura do líder heroico é mandante de uma maneira que não aparece quando o coletivo é feminino. Creio que a nós, homens, pesa mais a armadura e que gastamos energia demais em nos armarmos para batalhas inúteis, batalhas onde está em jogo nossa masculinidade em prol de… de que, mesmo? Ainda preciso pensar e aprender a respeito.

Vejo como um aspecto feminino (e posso estar falando desde uma ótica machista que não percebo) uma maior dificuldade em explicitar os conflitos ou em lidar quando eles aparecem de maneira escancarada. Custa às vezes discriminar quando se trata de questão pessoal ou profissional e quando uma questão que é pessoal deve ser deixada de lado para atender uma demanda profissional.

Pode esta dificuldade ser reflexo de uma característica de gênero? Uma característica intrínseca, ou talvez instaurada pela tradição que não ensina à mulher a lidar com a própria agressividade? Uma tradição que faz que dela se espere compreensão e apaziguamento? Ou da dificuldade de nós, homens, em lidar com uma suposta sensibilidade especial das nossas colegas? “Eu não quero ser tratada como boneca que pode quebrar!” me disse uma amiga e sócia.

Isso exige aprendizados para todas e todos: conflitos não somem porque você não os encara – pelo contrário, recalcados, eles acabam ganhando mais poder e fazendo dano, travando ou apodrecendo de dentro para fora. Na PYXYS, tentamos que os conflitos sejam enfrentados e trabalhados, e nisso estamos aprendendo juntos.

Os ganhos no pessoal são enormes. A maior tolerância à minha própria vulnerabilidade, por exemplo, ou como entendi que fragilidade pode ser e muitas vezes é um atributo positivo ou até mesmo necessário. Que força não é igual a dureza e que quando se confunde com rigidez então as coisas quebram, desmancham.

Às vezes, desmanchar é o único caminho para abandonar o certo e o duro. Quando se tornar flexível não é possível, então precisamos aproveitar as quebras para dar lugar ao novo. Mais uma vez: dói, não é fácil. Mas é necessário.

Ao conviver com mais mulheres no comando, me sinto convidado a relaxar meu lado mais agressivo, que sempre foi presente demais. O meu belicismo ariano, ancorado em Marte, pode repousar até deixar de ser interessante e acabar esquecido, substituído por aspectos bem mais ricos.

Ainda tenho muito para romper do velho e substituir pelo novo. Em muitos casos não terá sido suficiente e o que o machismo esmagou não poderá ser reerguido. Me restará conviver com a dor e o luto, que talvez consiga transformar em força para seguir construindo e compensando. Assim como aos brancos europeus nos cabe reparar o estrago feito pelos nossos antepassados, é missão dos homens participar de maneira ativa numa reforma urgente e indispensável das formas de nos relacionarmos.

Precisamos contribuir para fazer real o preceito ético de Paul Ricoeur:

“Viver uma vida boa, com os outros e para os outros, em instituições justas”.

Gosto do Ricoeur, o filósofo que estudo há quase duas décadas, mas eu quero finalizar citando a uma mulher, e ninguém melhor que a Hannah Arendt, autora de uma das maiores obras filosóficas do século XX.

Ela disse, no seu livro indispensável A condição humana:

“Fluindo em direção à morte, a vida arrastaria consigo, inevitavelmente, todas as coisas humanas para a ruína e a destruição, se não fosse a faculdade humana de interrompê-las e iniciar algo novo. Embora devamos morrer, não nascemos para morrer, mas para começar”.

Devemos morrer em algumas certezas para poder nascer e começar. Sempre.