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Detox corporativo

Novos conceitos de sucesso, poder e riqueza: é isso que defende Cíntia Santana, sócia e CGO da PYXYS, que comemora 20 anos de carreira (metade deles fora do “mundo corporativo”).

Cíntia Santana
Detox corporativo

Talvez você já tenha se perguntado se acertou na escolha profissional. 

Se vale a pena acordar tão cedo, pegar tanto trânsito, engolir tanto sapo, tomar tanto café. 

Se a vida “farialimer”, no metro quadrado mais disputado da cidade, é mesmo tudo aquilo (substitua a metáfora paulista por qualquer outra “ilha da fantasia” da sua região).

Se sucesso, poder e riqueza se medem (apenas) com dinheiro.

Uma década de detox corporativo

Já havia completado 10 anos de carreira em grandes empresas quando escolhi empreender, em junho de 2012.

Meu Whats não bombou porque a galera estava toda no Skype. Nossas tias ainda não haviam orkutizado o Facebook. No Insta era tudo mato. A 99, primeiro unicórnio brasileiro, teria esse título apenas seis anos depois, em 2018. 

“Você vai em-pre-en-der?”

Equipe não entendeu, chefe menos ainda. Eu mesma estava custando a acreditar. 

Gostava do que fazia. Havia sido reconhecida em curtos espaços de tempo: oportunidades, cargos, grana, sabático. Ambiente legal. Pessoas bacanas. Alinhamento com os valores da empresa. Tudo bonitinho, dentro do script do privilégio.

Trabalhava muito, não vou negar. Tipo muito, mesmo. Adotava o CNPJ como sobrenome e não media esforços para atingir metas pelo puro prazer de… atingir metas. Nerd, capricorniana, workaholic, muitos nomes científicos foram usados para tentar me definir.

Até que percebi: me faltava vida.

Meu conceito de sucesso, poder e riqueza estava restrito a dinheiro. E talvez eu não tivesse tempo (ou, em breve, saúde) para usar esse dinheiro.

A falta de vida com as pessoas que eu amava (incluindo a mim mesma) estava custando muito, muito caro.

Ouvi que era a maior burrada, aquela que eu estava fazendo. Que teria pouco tempo para atingir o “auge” pois, “se eu quisesse ser mãe, já era a carreira”.

Foi quando tive a certeza. Precisava lutar por um mercado profissional diferente.

Este mês, junho de 2022, é comemorativo para mim. Completo 20 anos de carreira e celebro a primeira década do que gosto de chamar de detox corporativo.

Como conciliar vida e trabalho? O grande dilema

A imensa maioria dos trabalhadores brasileiros não tem escolha. Rala duro pra (sobre)viver.

Então, romantizar o trabalho passa longe do que pretendo aqui – ainda que tenha consciência do meu privilégio em ser remunerada por algo que me proporciona, sim, prazer.

Acontece que aí chega o Elon Musk, reconhecido como um dos maiores inventores e empreendedores do século XXI, dizendo que acabou a palhaçada. É presencial ou rua.

Como essa obrigação soa para os seres vivos que – lembremos – trabalharam confinados nos últimos dois anos e tralalá? E não por escolha própria.

Produtividade > Rentabilidade > Margem. Entendo.

Mas será que não há outros caminhos? Liberdade > Compromisso > Margem, por exemplo?

“O futuro do trabalho já é presente”, aprendi antes mesmo da pandemia com a Datise Biasi, especialista em Futuro do Trabalho, Novas Economias e Reinvenção das Organizações. Mais colaboração e menos competição. Bater metas e não bater ponto. Autonomia criativa no lugar de job description engessado. Relações menos hierárquicas e mais orgânicas.

Muito bonito tudo isso. Mas e os resultados?

É preciso coragem para incentivar que as pessoas trabalhem livres. Assumir que serão responsáveis o suficiente para respeitar acordos.

Porém, isso que alguns podem chamar imprudência, nós aqui na PYXYS gostamos de chamar de confiança. Há compromissos formais, com deveres e direitos mútuos entre quem contrata e quem é contratado, que precisam ser cumpridos.

E são.

Ontem participei de um encontro virtual mensal com todo o time. Mais de trinta pessoas pelo Brasil. Algumas fora do país. O tema? Compromisso, um dos valores da empresa.

Não fui a única sensibilizada pela fala de alguém extremamente consciente da sua entrega e também de seu valor:

“É claro que precisamos de dinheiro. Mas também precisamos usar nosso talento, o melhor de nós, para que possamos ver resultados em nossas próprias vidas. O compromisso é também com quem nós somos”.

Concordo em absoluto. 

Queremos usar, no trabalho, o melhor que temos: intelecto, voz, postura, ideais. Soft, hard e power skills.

Nossa profissão não nos define. Somos surfistas, escritores, músicos e até flamenguistas. Introvertidos, leves, amadores, intensos. Demisexuais, tripolares, multiculturais. Desenroladores, batedores e jogadores de ladinho.

Alguma dúvida de que um time que tem liberdade para usar suas melhores habilidades consegue superar desafios?

Precisamos desconstruir a cultura tóxica que vê as pessoas como números.

É necessária uma transformação estrutural profunda no mercado: se a empresa ganha, todos ganham. Isso precisa aparecer na conta bancária, na realização pessoal, no desenvolvimento profissional e na leveza das horas dedicadas a qualquer coisa que nos faça bem.

É treta.

Mas quero disseminar esse jeito humano de existir como empresa.

Na PYXYS, lutamos para concretizar nossos valores em ações tangíveis. Temos muito pela frente, mas gosto de saber, por exemplo, que conosco há mães e pais que conseguem conviver com seus filhos, levá-los à escola, ao médico e à natação em horário comercial, sem que isso afete suas remunerações, e também o nosso compromisso de entrega de resultados a nossos clientes.

Sucesso, poder e riqueza

Ouso, para concluir esta reflexão celebrativa, definir conceitos de sucesso, poder e riqueza.

(Vou logo avisando que me permitirei reaprendê-los amanhã mesmo).

Mas, hoje, aqui do escritório cheio de plantas nos fundos da minha casa, a exatos cinco passos do quintal que foi nosso refúgio familiar pandêmico, são essas as definições que fazem sentido para mim.

Sucesso é revisitar o tal do propósito e descansar. Mesmo que ainda não se tenha a menor ideia do que se quer. É a liberdade de estar em construção permanente.

Poder é rejeitar o dresscode da depressão e a cultura do stress. Saúde mental importa.

E riqueza é tempo de qualidade para fazer o que for que nos alimente. A alma.