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Diversidade e vagas afirmativas na PYXYS: os desafios que encontramos

Investimos em conversas sobre diversidade e vagas afirmativas como caminhos para mudar. Mas encontramos um empecilho na postura do Linkedin.

Rodrigo Goldacker
Diversidade e vagas afirmativas na PYXYS: os desafios que encontramos

Aqui na PYXYS, decidimos investir na mudança. Queremos tornar nossa empresa mais diversa e trazer esse tema para o dia a dia de toda nossa equipe. Queremos traduzir nossa cultura em ações concretas que contribuam a uma luta muito importante para a sociedade brasileira.

Você já deve ter visto muita gente afirmando coisas desse tipo. Como discurso, a ideia de diversidade já é muito bem aceita. No nosso caso, não queremos só falar sobre: a gente quer mesmo fazer.

Mas encontramos uma barreira inesperada: a postura do Linkedin, a maior plataforma de conexão entre profissionais do Brasil, quando tentamos divulgar uma vaga afirmativa.

E é sobre essa história que queremos refletir hoje.

1. Traduzindo nossa cultura em ações

Pensar e falar de diversidade é um processo que precisa envolver todo mundo. Aqui na PYXYS, viemos construindo nosso posicionamento sobre o assunto com várias medidas: primeiro, trouxemos a missão de tratar de diversidade na empresa; depois, construímos um comitê de diversidade.

Recentemente, tivemos nossa primeira conversa temática sobre o lugar da mulher negra no mercado de trabalho, um evento proposto por nossa área de Gente & Cultura e que contou com a presença da advogada e pesquisadora em Direito, raça e tecnologia Camila Lima das Neves.

A gente sabe que é um processo. Construir essa conversa e explicar como a diversidade é um dos principais caminhos para expressar nossos valores é algo que envolve tempo e um esforço constante de todo mundo.

Mas a gente decidiu fazer a nossa parte: é importante que quem já faz parte da PYXYS se eduque e entenda o que estamos fazendo e porquê estamos fazendo. Isso inclui repensar nosso vocabulário e propiciar um ambiente que dê liberdade de entre nós sugerirmos alternativas a termos que devem ser evitados por estarem relacionados a algum tipo de preconceito, por exemplo.

 

2. Escolhendo se posicionar

Apesar de todas essas medidas já estarem acontecendo aqui dentro há alguns meses, a gente não queria falar muito a respeito. 

Primeiro, porque sentimos que estamos só cumprindo nossa obrigação. O mínimo que podemos fazer é participar dessa mudança ativamente. Segundo, porque a gente não queria passar como quem só fala de diversidade para “pegar bem”: então quando tivéssemos algo mais concreto para mostrar, faria mais sentido falar sobre.

Sabemos que uma das principais críticas feitas a empresas que divulgam questões de diversidade é justamente sobre a diferença entre teoria e prática: é comum encontrar quem parece perfeitamente adequado no discurso e que faz sucesso compartilhando conteúdo sobre querer ajudar “na teoria”, enquanto pouco faz para implementar uma cultura mais diversa de verdade.

A gente quer fazer de verdade. É por isso que, como um pequeno e significativo passo nessa direção, decidimos anunciar uma vaga afirmativa para mulheres negras. Ainda há muito pela frente, nós sabemos. Mas estamos em movimento.

 

3. Vagas afirmativas: a importância e a dificuldade

Vagas afirmativas são uma das maneiras mais honestas e efetivas de contribuir de verdade para uma mudança na cultura de uma empresa, construindo diversidade como uma realidade, não só como um discurso. 

Ao mesmo tempo, vagas afirmativas são uma das ideias mais demonizadas e sabotadas no Brasil, talvez justamente por seu potencial transformador. Elas incomodam porque, para além do discurso, trazem um “risco” de construir diversidade de verdade.

Uma das primeiras polêmicas com o assunto no Brasil aconteceu ainda em 2020, quando a Magalu sofreu um forte boicote e até um processo judicial por anunciar um processo afirmativo  de seleção para trainees. De lá para cá, outras empresas tentaram – e foram punidas, sabotadas ou silenciadas – por investir em diversidade com vagas afirmativas. A conversa voltou a ganhar muito destaque recentemente, com o PROCON chegando até mesmo a notificar o Linkedin por sua postura de barrar vagas afirmas. Finalmente, o Linkedin voltou atrás, derrubando seu veto às vagas afirmativas após a pressão popular e de empresas.

Mas fica a pergunta: por que toda essa movimentação foi necessária?

A postura do Linkedin até então contribuía para a dificuldade de pensar em processos de seleção afirmativos no Brasil. Ao proibir a veiculação de vagas afirmativas, alegando que a ideia se enquadra em uma situação de “descriminação”, a empresa adotou um discurso superficial e ultrapassado. O mesmo Linkedin que parece um ambiente tão propício para que empresas capitalizem o discurso de diversidade é aquele em que ações para a diversidade são impedidas desta maneira.

Existem várias questões ignoradas pela justificativa de que vagas afirmativas são “descriminação”: ignora-se, por exemplo, que qualquer processo seletivo “normal” acaba sendo um processo de “vaga afirmativa” para o grupo dominante. Ignora-se ainda que algumas  vagas podem exigir de fato a presença de alguém de determinado grupo também pela função a ser desempenhada: membros de  comitês de diversidade, leitores sensíveis, pesquisadores que contribuam para a representação de um determinado grupo em um produto cultural…

Vagas afirmativas também podem contribuir para melhorar a formação do profissional brasileiro, combatendo a desigualdade para que profissionais depois possam competir no mercado de trabalho de maneira mais justa e igual: muitas delas não só oferecem a fundamental experiência profissional necessária para integrar o mercado, como também propõe a formação adicional do profissional, investindo em cursos para que se especialize nas funções que irá desempenhar.

A PYXYS foi apenas mai uma das empresas impedidas pelo Linkedin de divulgar vagas afirmativas. Mas hoje podemos aparecer para falar de diversidade em tom de denúncia, indo além do conteúdo “inofensivo” dos discursos que não são traduzidos em práticas aos quais a plataforma parece dar preferência. Entendemos que nosso testemunho é somado ao de outros profissionais que tiveram o Linkedin como empecilho à proposta de implementar vagas afirmativas.

Juntos, exigimos a mudança dessa posição da plataforma. Assim, como pontapé inicial para a diversidade, podemos defender um Linkedin que seja aberto às vagas afirmativas como uma possibilidade que qualquer empresa tem o direito de escolher implementar e comemorar a mudança recente da política de vagas afirmativas no Linkedin.

Damos a palavra final à nossa head de Gente & Cultura, Roseane Sousa Santos, sobre o processo de vaga afirmativa que propomos, a reação do Linkedin e a importância de investirmos em medidas desse tipo:

“Foi interessante ver como se deu o processo com essa vaga afirmativa.

Inicialmente publicado nas plataformas que utilizamos sem o título de vaga para mulheres negras recebeu 60 candidaturas, destas apenas duas eram mulheres negras.  Ao ser publicada como vaga afirmativa recebeu 41 candidaturas, das quais mais de 50% estavam dentro dos critérios exigidos.  

É urgente no Brasil pensarmos ações práticas que saiam do discurso para fazer a diferença em acesso à oportunidades para grupos normalmente preteridos. Grupos que quando se aplica a lógica da meritocracia, serão os últimos a chegar, como PcD’s, pessoas trans, negros, pessoas de baixa renda, profissionais 50+. São tantas as frentes que ainda precisamos trabalhar que é inacreditável uma plataforma com a visibilidade do Linkedin ter uma postura tão retrógrada.

Também se faz necessário que empresas que trabalham com Recrutamento e Seleção abram esse debate. Hoje em conversa com uma empresa que trabalha com Recrutamento fiquei sabendo que em dois anos de atuação e com quase 90 clientes, apenas duas vagas afirmativas foram trabalhadas, e percebo que muitos recrutadores sequer se questionam por que certos públicos não conseguem chegar às vagas anunciadas.

A PYXYS resolveu abrir a vaga afirmativa para mulheres negras, pois se observarmos alguns estereótipos que permeiam o imaginário coletivo vamos notar que de uma maneira geral vêm carregados de significados negativos e que dificultam que a mulher negra chegue a determinados cargos. Autoras como Grada Kilomba, Lélia Gonzalez, Patricia Hill Collins entre outras, trazem em seus escritos diversos exemplos de como se constitui esse imaginário da figura da mulher negra e portanto do lugar que ela deve ocupar na sociedade, de acordo com esses estereótipos. 

Discutir sobre as ações discriminatórias que permeiam o mercado de trabalho é um dos passos que julgamos importantes para avançar em direção à equidade. Continuaremos trabalhando para desconstruir essas visões e lembrar que a mulher deve estar onde ela quiser.”