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“É hoje que vão descobrir que sou uma farsa”. Quem nunca?

Dia Internacional das Mulheres é de reflexão. Por isso, a PYXYS, startup de inteligência digital com três co-fundadoras, inaugura hoje a coluna de Cintia Santana, sócia e CGO:

Cíntia Santana
“É hoje que vão descobrir que sou uma farsa”​. Quem nunca?
A síndrome do impostor e o poder dos saberes múltiplos.

Quanto você acha que sabe?

Ao substantivo “saber” geralmente atribuímos o conhecimento científico, técnico, baseado em fatos e dados comprovados.

“Ela sabe do que está falando”. Tem know-how. Conhece porque estudou, mergulhou no tema, dedicou horas, dias, anos ao aprendizado.

Aplaudimos quem, por persistência ou até por privilégio, alcança condecorações de sapiência: alfabetização, ensino fundamental, médio, universitário, pós, especialização, doutorado, phd, educação Jedi intergaláxica.

Acontece que há um “saber” igualmente complexo, profundo e valioso chamado conhecimento empírico. 

“Ela sabe do que está falando”. Viveu. Conhece porque experimentou, sentiu na pele, tomou na cabeça, chorou pra caramba, talvez, e aprendeu que, na perspectiva dela, o mundo funciona assim ou assado.

Por que, então, láááá no fundo, somos movidos a achar que o que sabemos não é suficiente?

Que nossa bunda é pequena demais pra cadeira onde estamos sentados?

Que um dia vão descobrir que somos uma farsa e nada temos a agregar?

Somos o que sabemos

Mas isso vai muito além do que cabe no Linkedin.

É o combinado de essência e vivência que nos faz absolutamente únicos e valiosos.

Em qualquer ambiente.

Qual-quer ambiente.

Pessoal ou profissional.

“Ué, mas podemos levar nossa visão de mundo para o trabalho? Será que o que esperam de mim não se limita ao meu conhecimento técnico?” Se a sua resposta for “sim“, eu recomendaria que, na medida do possível, você fuja correndo desse lugar.

Pessoas são grandes demais para ocupar quadrados hierárquicos e funções limitadas. 

Quando decidi empreender, lá do alto do meu privilégio branco cisgênero, um dos motivadores mais fortes foi colaborar para um mundo corporativo menos tóxico.

Luto todos os dias para criar e desenvolver um ambiente de trabalho em que pessoas plurais, diversas, de gerações e escolhas de vida diferentes possam exercer seus saberes múltiplos e, com isso, melhorar tanto quanto for possível o seu entorno.

Se, como consequência, conseguirmos juntas e juntos gerar impacto na sociedade e fazer deste planeta um lugar melhor para as próximas gerações, terei cumprido meu propósito.

Há algo único no olhar de cada um de nós. Acontece que não fomos treinados para perceber e valorizar aquilo que nos parece “fácil demais”. 

Pensamos que aquela forma de encarar os fatos é óbvia para todos, ou que determinada habilidade é natural do ser humano – quando se tratam de talentos nossos, muitas vezes raros, sempre especiais.

Recentemente, reforçava para uma pessoa querida em nosso time que ela não precisava se enxergar como a mais nova ou a menos experiente da empresa; e sim como uma nativa digital representante de toda uma geração de pessoas que enxergam o mundo de um ponto de vista extremamente rico e diferente do meu. E que, se ficasse calada nas reuniões por achar que pouco tinha a somar, aquilo que ela agregaria jamais seria dito por mais alguém, e a troca seria menos rica por conta disso.

O que você traz pro game?

O que a sua história de vida fez de você?

Talvez você tenha sido sobrevivente. Pode ter sofrido traumas diversos. Ou herdado facilidades, recursos, privilégios.

O que você escolhe diariamente fazer com o que já viveu? Esconder, por medo da vulnerabilidade? Ou usar como força para apoiar pessoas que estão ao seu redor, cheinhas de inseguranças diversas?

Quero colaborar para que as relações de trabalho valorizem o ser humano integral – com suas malas e viagens, conhecimentos técnicos e empíricos.

“Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes”.
(Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa)

Vivemos cercados de especialistas. Observe mais de perto quem está aí do lado. Deixe que te conheçam, também.

Pergunte a quem te rodeia: o que te faz único?

Não subestime a combinação exclusiva de saberes múltiplos que há em você. 

Aproprie-se deles.

E pare, por favor, com essa autossabotagem.

Você não é uma farsa. Eu não sou uma farsa.

Inadequado é não ser quem somos.