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Setembro Amarelo: você sabe por que ele existe?

Em sua coluna de estreia no blog da PYXYS, Roseane Santos, head de Gente e Cultura da PYXYS, traz uma reflexão importantíssima sobre um tema muito sério. Como falar sobre suicídio da melhor maneira?

23.09.2022

Uma história que começou com um Mustang 68

Quando chega setembro vemos muitas ações das empresas, instituições públicas e privadas no sentido de voltarem os olhos para a questão dos cuidados com a saúde mental e prevenção ao suicídio. Mas você sabe como o Setembro Amarelo enquanto movimento começou?

Começou com a história de um jovem americano, Mike Emme, que ficou conhecido por suas habilidades mecânicas e ter como marca um Mustang 68 que ele mesmo restaurou e pintou de amarelo. Entretanto, em 1994, quando estava com 17 anos, Mike cometeu suicídio, sem que ninguém ao seu redor, amigos nem familiares percebessem que houvesse algum sinal de que ele pretendia tirar a própria vida. No funeral foi montada uma cesta de cartões com fitas amarelas e a mensagem: “Se precisar, peça ajuda”. Essa ação ganhou muita repercussão nos EUA e no mundo. 

A Organização Mundial da Saúde(OMS) instituiu, em 2003 o dia 10 de setembro para ser o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio e a cor amarela foi escolhida por ter a cor do Mustang amarelo de Mike. É uma ação importante no sentido de conscientização acerca do tema e alerta para os riscos de suicídio.

Como é no Brasil?

Tendo em vista que são registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo, esse é um tema que precisa ser falado, debatido e naturalizar conversar sobre saúde mental, pois ao investigar a história pregressa dos casos de suicídio temos que, em 96,8% dos casos há relação com transtornos mentais. Entre as principais doenças relacionadas está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias.

Falar sobre depressão e outros transtornos mentais e desmistificar algumas crenças sobre adoecimento psíquico é o primeiro passo para pensarmos em cuidados no âmbito emocional, uma vez que ainda falta muito conhecimento e há muito estigma relacionado a esse tema.

Com tudo o que aconteceu relacionado à Covid-19, não temos como desconsiderar os efeitos da pandemia no aumento de casos de transtorno mental. Segundo a OMS, as doenças psicoemocionais são a terceira maior causa de afastamento do trabalho no Brasil. Em pesquisa realizada recentemente por uma startup de saúde, tivemos um aumento de 30% em afastamentos motivados por transtornos mentais desde o ano de 2020.

Esse mesmo estudo mostra que o tempo médio de afastamento por questões emocionais costuma ser de seis dias – período 128% superior à indicação padrão para outras doenças. No caso dos atestados de ansiedade, o distanciamento do trabalho passou de 3,3 dias, em 2020, para 4,7 dias, em 2022, um aumento de 42%.

Sendo assim, investir na qualidade de vida do colaborador e na prevenção são fundamentais para prevenir estados mais graves de adoecimento mental. As empresas podem fazer isso criando programas voltados ao incentivo à prática de atividade física, orientações sobre cuidados com o sono, rodas de conversa sobre saúde mental, abertura para que as pessoas tenham segurança e se sintam acolhidas no ambiente de trabalho para falar sobre seu estado emocional.

Com enfrentar o preconceito e investir em prevenção

Ainda há muito preconceito e julgamento que fazem com que a pessoa que não está bem vá adiando a busca por ajuda. Ainda vemos pessoas associando depressão à fraqueza, ansiedade à frescura, transtornos de personalidade com “pessoas difíceis”, o que leva o indivíduo a aguentar, muitas vezes sozinho, situações desafiadoras.

Precisamos ter muito cuidado com o modo como são divulgadas as campanhas que pretendem “prevenir o suicídio” porque muitas vezes podem ser carregadas de julgamento. Quem comete suicídio não é covarde, nem é herói, é um ser humano que, como tal, está sujeito à dor, ao medo e à desesperança. Outro alerta que sempre faço é que não dá para desacreditar que alguém muito próximo de nós pode vir a tirar a própria vida, portanto um bom caminho é ter disponibilidade para ouvir sem julgamento e quando  não estiver bem, se permitir mostrar-se vulnerável e pedir ajuda.

Sabemos que o desenvolvimento de um problema mental é o resultado de uma interação entre fatores biológicos, psicológicos e socioambientais. Segundo a Organização Nacional de Saúde (OMS), o trabalho é bom para a saúde mental, mas um ambiente de trabalho negativo pode levar a problemas de saúde física e mental, por isso, cada vez mais as empresas precisam estar atentas ao clima no ambiente de trabalho e incentivar os processos de conversa um a um, uma vez que os feedbacks são momentos onde o gestor pode perceber como cada um do time está e se algo não vai bem.

Os principais sinais

Ao falar de Saúde mental e riscos para o suicídio devemos olhar para sinais que podem indicar que alguém pode estar precisando de ajuda:

  • Falta de cuidado com a aparência – um dos primeiros pontos que acontecem quando a pessoa passa a ter desesperança é deixar de cuidar da própria aparência;
  • Alterações de humor – irritabilidade, instabilidade, episódios de choro sem aparente motivo
  • Isolamento e abandono de atividades que realizava – A falta de interesse pelas atividades que antes eram prazerosas é um fator importante a ser observado
  • Piora no desempenho profissional ou escolar – Queda no desempenho, uma vez que não consegue manter o envolvimento de antes
  • Comportamentos impulsivos, muitas vezes se colocando em risco.

Outro ponto importante é de que não dá para falar de saúde mental somente em setembro e nos outros meses do ano não dar a devida atenção a esse tema. Uma frase do Carl Gustav Jung, que gosto muito de mencionar, diz: “A depressão é como uma mulher vestida de preto. Se ela aparecer, não a afaste. Convide-a para entrar, ofereça-lhe um assento, trate-a como uma convidada e ouça o que ela tem a dizer.”  assim como outras doenças, ao invés de tentar afastar, tentar entender o que os sintomas querem nos mostrar pode trazer melhores caminhos para compreender o que nos acontece.

Quero fechar esta reflexão contando algo muito pessoal. Durante a minha trajetória de vida pessoal, tive a perda por suicídio de alguém muito próximo quando ainda nem pensava em ser psicóloga. Na minha trajetória profissional, também já experienciei episódios em que o indivíduo desiste de continuar tentando e coloca um fim na própria vida, quando muitas vezes o que queria era o fim do sofrimento. Esse meu percurso me faz trazer um apelo:  saúde mental é coisa séria; todo investimento feito nas relações, nos abraços, nos sorrisos, nas escutas genuínas e sem julgamentos, no olhar realmente interessado no outro, nas demonstrações de vulnerabilidades podem ser sementes que plantamos em favor da vida e do bem estar, nosso e do outro, e concluir que

SE PRECISAR, PEÇA AJUDA!

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